jantar em família previne obesidade
26 de maio de 2011
fazer ao menos 3 refeições por semana com os pais diminui a taxa de distúrbios alimentares nas crianças
filha de pai hipertenso e de mãe preocupada com sua saúde, maria luiza felippe ferreira, de 12 anos, já cansou de ouvir que a alimentação saudável é para o seu bem. o que ela não sabia é que uma pesquisa divulgada neste mês pelo pediatrics, jornal oficial da academia americana de pediatria, mostrou que fazer pelo menos três refeições semanais em família ajuda a controlar a ingestão de alimentos com calorias vazias, reduz a obesidade e afasta crianças e adolescentes da anorexia e bulimia.
rita e o marido com a filha maria luiza, de 12 anos: regras rígidas na hora das das refeições
o estudo is frequency of shared family meals related to the nutritional health of children and adolescents? acompanhou os hábitos alimentares de 182.836 crianças e jovens com idades entre 2,8 anos e 17,3 anos e constatou redução de 12% em sobrepeso no grupo acostumado a almoçar ou jantar com a família. apontou também um consumo 20% menor de alimentos ricos em calorias e a diminuição de 35% no desenvolvimento de distúrbios alimentares.
a mãe de maria luiza, rita felippe ferreira, conta que a filha sempre esteve abaixo do peso e sua preocupação não é com sobrepeso, mas com o elevado triglicérides verificado em seu sangue num exame feito há dois anos. "se eu já pegava no pé dela, agora pego mais", diz, lembrando que o marido, nilton carlos de oliveira, é hipertenso.
como não gosta de verdura e raramente ingere frutas, a menina, de 1,66 m e 47 quilos, reclama um pouco do rigor alimentar mantido pelos pais, mas já aprendeu que almoço e jantar são momentos sagrados e deve estar acompanhada da família.
"ela reclama, me chama de chata, mas sabe o que deve e o que não deve comer", diz a mãe, acrescentando que, às vezes, cede um pouco. no almoço de ontem, por exemplo, maria luiza queria pastel e batata frita, mas teve de escolher um deles: comeu pastel. na casa dela as regras são claras: fazer as refeições diante da tv não é permitido. comer rápido e deixar a mesa às pressas, também não.
"sentar à mesa para fazer as refeições pode fazer muita diferença na vida de uma pessoa", afirma o professor livre docente de pediatria da faculdade de medicina da universidade de são paulo (usp), rubens feferbaum. no instituto de ensino e pesquisa do hospital infantil sabará, onde o nutrólogo também trabalha, a recomendação que costuma passar aos pacientes é para que tenham disciplina com os horários das refeições. "essa coisa de comer de qualquer jeito e em qualquer lugar pode levar a alguns distúrbios nutricionais", observa.
na opinião de feferbaum, não há uma receita de refeição ideal para crianças, jovens ou adultos. "alimentação adequada é aquela que segue a tradição da casa", garante. "comer carnes, legumes, verduras, raízes e frutas é uma necessidade do organismo para processar os macro e os micronutrientes. essa variedade é que é importante."
além de trazer benefícios nutricionais, a refeição com os pais, garantem os especialistas, também favorece a saúde emocional das crianças e os vínculos familiares.
uma em cada três crianças está acima do peso no país
a pesquisa de orçamentos familiares (pof) 2008-2009 sobre o estado nutricional da população mostra que a frequência de sobrepeso e obesidade entre as crianças de 5 a 9 anos apresentou aumento expressivo nas duas últimas décadas: uma em cada três tem excesso de peso, segundo o ibge. entre os adolescentes, 20% estão acima do padrão da organização mundial da saúde. o excesso de peso, que engloba sobrepeso e obesidade, afetava 10,9% dos meninos de 5 a 9 anos em 1974-1975, chegou a 15% em 1989 e alcançou 34,8% nesta última pof. nas meninas, o padrão foi semelhante: 8,6%, 11,9% e 32%. a maior concentração de crianças acima do peso é do sudeste, mas o problema atinge pessoas nas cinco regiões, de todos os grupos de renda.
a pesquisa, que ouviu e realizou medições em 188.461 pessoas de todas faixas etárias e de renda do país, mostrou ainda que no grupo das famílias com maior renda quase metade dos meninos (46,2%) apresentava excesso de peso, ante 26,5% na faixa dos 20% mais pobres.
nas refeições, diálogo e proximidade
o hábito saudável de reunir a família ao redor de uma mesa para se alimentar, conversar sobre o dia de cada um e dar boas risadas ficou perdido no passado na maior parte dos lares brasileiros. "um come na sala, outro na cozinha", comenta a especialista em nutrição e alimentação infantil, vera lúcia perino barbosa. "para falar com os filhos hoje em dia tem de mandar um torpedo."
com a experiência de quem preside o instituto movere - que oferece prevenção e tratamento para obesidade infantil e já atendeu mais de 1,5 mil crianças e adolescentes desde 2004 - vera conta que os pais costumam chegar ao instituto afirmando que o filho está com problema de obesidade. "o que alguns pais não lembram é que os filhos são o reflexo deles. quem faz as compras e quem cozinha não é a criança."
na opinião dela, o ritual de reunir a família é fundamental, mas o que será servido também deve ser observado com atenção. "nada é proibido, mas alimentos embutidos (salame, salsicha, linguiça, hambúrguer) não devem estar no cardápio de uma criança. no máximo, podem aparecer muito raramente", ensina. "a gordura desses alimentos com certeza vai aumentar o colesterol da criança ou transformá-la em hipertensa no futuro."
aprendizado
a auxiliar de dentista priscila alice dos santos de paula, 31 anos, conta que começou a reunir a família à mesa num esforço conjunto para controlar o peso do filho. há cinco meses, com o início do tratamento de guilherme - 10 anos, 1, 58m e 70 quilos -, priscila resolveu mudar os hábitos alimentares da casa toda. a outra filha, de 5 anos, e também o marido tiveram de se adequar aos horários fixos das refeições e ao cardápio saudável.
uma das principais mudanças foi excluir o refrigerante. agora, o líquido só é permitido aos fins de semana e, mesmo assim, não pode ser de cor escura porque, segundo ela, engorda mais. "quando o marido foge à regra, o guilherme chama a atenção dele."
outra coisa que priscila aprendeu foi a importância de olhar para o alimento e mastigar muito antes de engolir. "o que sacia nossa fome é o cérebro", diz ela. "qualquer coisa que se faça comendo não entra como informação para o cérebro", acrescenta vera. "sem essa informação, a pessoa vai sentir fome mais rápido."
http://www.estadao.com.br/noticias/vida ... 4293,0.htm